“Espírito gastar, perde vergonha,
Luxuria em ato e antes de ato, luxuria,
Assassina, perjura, infame ronha,
Rude, extrema, cruel e brutal fúria;
Tão depressa gozada, denegrida,
Sem razão, isca engolida,
Feita a enlouquecer quem a abocanha;
Louca na caça e louca ao possuir,
E tendo tido, e tendo, e no fim, põe o
Prazer à prova e a dor, provado, a vir,
Antes proposta de êxtase num sonho.
Tudo isto o mundo sabe e ninguém sabe
Fugir do céu que assim no inverno cabe.”
William Shakespeare, Soneto 129
Por mais liberais que possamos nos considerar, a luxúria não causa uma boa impressão.
Enquanto o amor recebe o aplauso do mundo, a luxúria é furtiva, envergonhada e constrangida. O amor busca o bem do outro, com autocontrole, preocupação, razão e paciência. A luxúria busca sua própria gratificação, é precipitada, impaciente, descontrolada, imune à razão. O amor perdura, enquanto a luxúria satura.
Schopenhauer nos diz que “a luxúria é o objetivo definitivo de quase todas as empreitadas humanas, exerce uma influência adversa sobre os assuntos mais importantes, interrompe os negócios mais sérios a qualquer momento, às vezes confunde por algum tempo, até as mentes mais grandiosas, não hesita, com sua tolice em perturbar as negociações de políticos e as pesquisas de eruditos, tem a tendência a introduzir suas cartas de amor e seus anéis de cabelo até mesmo em portfólios ministeriais e manuscritos filosóficos”.
Mas, apesar de parecer impossível levantar a voz em defesa da luxúria, David Hume disse que uma virtude era qualquer qualidade da mente “útil ou agradável à própria pessoa e aos outros” . Sob alguns aspectos a luxúria se enquadra nessa definição. Essa nova interpretação se não a justifica, pelo menos a suaviza. A luxúria não é apenas útil ou agradável, é essencial. Sem ela, nenhum de nós estaria aqui.
Na atualidade a luxúria se tornou um instrumento de nosso comércio. Comercializamos o nosso fascínio com o que tememos, e que, sob diversos aspectos, parece problemático.
Identificar o objeto de nosso desejo é bastante difícil. Muitas vezes, pensamos desejar algo, quando na verdade nosso interesse recai sobre outra coisa. Ainda outras, escondemos e sentimos vergonha do que desejamos.
Quando falamos sobre a luxuria pode parecer óbvio sobre o que falamos: de desejo sexual. E bastante claro no que consiste esse desejo.
Mas isso não compreende o núcleo desse desejo. Alguém pode querer fazer sexo por diversas razões: para ter filhos, por dinheiro, vantagens profissionais, etc. Nesses casos as pessoas podem desejar e fazer sexo sem sentir luxúria. O sexo pode ser um meio para atingir um outro fim.
A verdadeira luxúria é o desejo de um ato sexual não como um meio, mas como um fim em si mesmo. O erro mais comum é confundir algo que leva o desejo a um fim com o objeto intencional do desejo, a coisa que ele realmente quer.
Alguém pode identificar a luxúria simplesmente como a excitação sexual, um estado físico de fácil identificação. Mas isso não basta, apesar do fenômeno físico ter, claramente algo a ver com a luxúria, ele não é suficiente.
A luxúria parece querer provocar algo. Tem um objetivo e um alvo.
Poderíamos supor que a luxúria é essencialmente a antecipação dos prazeres da atividade sexual. Ainda assim, isso não é o bastante, a antecipação pode aparecer de diversas formas, tanto como júbilo e alegria quanto culpa, melancolia e dor.
Por eles mesmos, até o desejo da atividade sexual e seus prazeres, e o desejo por eles como fim neles mesmos, ao contrário de rotas estratégicas para algo mais, não nos dá a luxúria inteiramente desabrochada. Um desejo frio não conta. É necessário acrescentarmos os sentimentos, o retrato na mente da excitação do corpo.
“Sempre que eu
Vejo você, mesmo que por um momento,
Minha voz me abandona
E minha língua é condenada ao silêncio, um fogo delicado
Repentinamente corre por baixo da minha pele,
Meus olhos nada vêem, meus ouvidos assobiam como
O rodopio de um pião
E o suor jorra por mim e um tremor se insinua sobre
Meu corpo inteiro, fico mais verde que a grama
Nesses momentos, pareço estar a nada mais
Que um passo da morte”
Safo, fragmento 31
A excitação, a inundação do corpo, pode ser estudada metodicamente por químicos, biólogos moleculares e neurofisiologistas. Eles nos dizem que os sistemas interligados responsáveis por esses fenômenos são o nervoso, o endócrino, o circulatório e o urinário. Além de mecanismos sexuais autônomos que ignoram os comandos do cérebro. Esses mecanismos contribuem para a inundação do corpo pelo desejo.
Sem excitação, nada de sangue fervendo ou de luxúria. Mas nossa preocupação está na luxúria do mundo humano, e não nos seus mecanismos fisiológicos.
O desejo entusiástico, o desejo que permeia o corpo, pela atividade sexual e seus prazeres em si mesmos, e, de agora em diante, é dessa maneira que levaremos a análise do significado da luxúria.
“Pareceria que a questão da luxúria não envolve apenas desejos e prazeres venéreos. Pois Santo Agostinho diz (Confissões, ii, 6) que “a luxúria afeta para ser chamada de excesso e de abundância”. Mas o excesso considera a carne e a bebida, enquanto a abundância refere-se à riqueza. Conseqüentemente, a luxúria não envolve propriamente desejos e prazeres venéreos”.
São Tomás de Aquino, Summa Teológica II, ii
Ao associarmos a luxúria ao excesso e à abundância, então seu caso já estará perdido. Mas é uma vitória insignificante: desejo excessivo é ruim exatamente porque é excessivo, e não porque é desejo.
Quando falamos de excesso e abundância subentendemos uma vontade desproporcionada e insaciável.
Um desejo se torna excessivo em sua intensidade se, em vez de meramente desejarmos algo, estivermos muito preocupados com ele, ou obcecados por ele, ou o fato de não consegui-lo nos tornar demasiadamente aflitos. Do mesmo o excesso pode pecar pela sua abrangência, não desejar apenas algum poder, mas também todo o poder, ou todo o ouro que existe no mundo.
É bem verdade que o desejo sexual engloba ambos os excessos. Don Juan talvez seja o melhor expoente para ambos.
Mas pode o excesso sexual ser contrastado com alguma idéia de sexualidade precisa e proporcionada, desejosa, mas sem nenhum excesso, e sem se tornar indiferente?
Aparentemente a própria natureza toma conta disso. Já que em alguns momentos nos acalmamos e descansamos. Assim não parece correto afirmar que a luxúria seja excessiva por ela mesma.
Quando o corpo é inundado de desejo e, mais ainda, quanto mais o corpo se aproxima do clímax, ele se esquece de todo o resto. Existe apenas o desejo no nosso horizonte. Muitas vezes, o clímax sexual elimina o pensamento.
Esse momento de abandono parece crucial para a luxúria.
Se bem, que há relatos de mestres chineses que enquanto faziam sexo, ditavam cartas e tratados. O que pode parecer virtuoso, mas no que diz respeito à luxúria, certamente falta o caráter de abandono.
Voltando ao problema da definição recorremos novamente a São Tomás de Aquino:
“Como diz Isidoro... ‘um homem lascivo é aquele que se entrega e se corrompe com os prazeres’. Agora os prazeres venéreos, acima de todos, corrompem a mente de um homem. Desse modo, a luxúria é especialmente relacionada com esses prazeres.”
Primeiramente, parece errado dizer que um homem lascivo é alguém corrompido pelo prazer: ele pode ou não ser corrompido. Independentemente do caso, o desejo sexual é muito mais acentuado apenas quando não somos corrompidos pelo prazer. O homem e a mulher quando saciados não são mais lascivos. E quando a corromper a mente do homem, também não parece verdadeiro, já que grandes gênios da humanidade, como Eisntein, não parecem ascéticos.
Assim, não parece correto criticar a luxúria apenas pelo excesso. Criticar a luxúria pela sua perda de controle é o mesmo que criticar a fome, que pode levar a gula ou a sede, que pode levar a embriaguez.
No principio do mundo ocidental os filósofos gregos expressavam prudência e certo desconforto em relação ao sexo.
Uma das imagens mais famosas é o modelo da alma de Platão, transformado no cocheiro e seus dois cavalos, descritos no Fedro:
“O cavalo que está na melhor posição tem uma aparência aprumada, membros destros, pescoço comprido; é branco na cor e tem olhos escuros; sua determinação para vencer é amenizada pelo autocontrole e respeito pelos outros, o que significa que ele é um aliado da verdadeira glória; e ele não precisa de chicote, pois é guiado apenas por comandos falados. O outro é torto, maior do que deveria ser, uma mixórdia de membros casuais; ele tem um pescoço grosso e curto e uma cara achatada; é preto, com olhos cinzentos e injetados, um aliado do excesso e da afetação, cabeludo em volta das orelhas, meio surdo e difícil de ser controlado, com uma combinação de chicote e aguilhoada”.
O Cocheiro representa a razão e descobre que “sua alma inteira está inundada por uma sensação de calor e que ele está entorpecido e incitado de desejo”. O cavalo preto representa a luxúria, que os atira na direção de um garboso menino que passa ali perto, “para provocar o tema dos prazeres do sexo”. Enquanto o cavalo branco, apesar de “cheio de vergonha e horror”, não parece se importar com esse aparente contratempo. Claro, é importante ressaltar que os gregos achavam normal que meninos bonitos incitassem a luxúria em homens.
O que Platão nos propõe é uma escolha. Tentar domar ou seguir o cavalo preto.
Se domarmos o cavalo preto, poderemos então levar uma vida de autocontrole e razão, pois dominaremos “a parte que permite o mal dentro da alma e liberta a parte que permite a entrada e a permanência do bem”. Mas ao seguir o rumo ditado pelo cavalo preto, escolhemos “o caminho considerado o mais maravilho de todos os que são trilhados comumente pela humanidade” consumando a relação.
É essencial ressaltarmos que em nenhum momento, Platão aponta este ou aquele caminho como o mais correto ou indica que algum leve a danação.
Há diversos quebra-cabeças na imagem platônica. Em momento algum fica claro o papel do cavalo branco. Ele não parece resistir ao impulso do cavalo negro, ficando apenas ao lado do cocheiro. E mesmo a motivação do cocheiro também não é clara, ele é a personificação da razão, mas também o repositório da emoção original, a incitação do desejo, afinal, é explicito que ele próprio, e não apenas o cavalo preto, sinta a mesma atração.
Parece bastante claro, que nesse modelo homuncular da mente, a luxúria já está definida: acidental, surda à razão e vergonhosa.
A presunção da luxúria como algo vergonhoso e que sucumbir aos seus prazeres é um tipo de fracasso parece ter brotado simplesmente como um axioma no qual todos confiamos.
Em Platão não encontramos implicações de que o desejo ou o prazer em si mesmo deva ser destruído, ou seja causa de calamidades.
Existe a idéia de que o desejo está em constante risco de tornar-se excessivo, assim precisa de controle, fornecido pela alma harmoniosa. Também subentendemos, que não há nada de fatalmente errado com nossos desejos. Porém há uma graduação de superior e inferior, além do risco da vergonha e da desonra. A luxúria é ótima , agradável, admirável, inteiramente satisfatória em seu lugar, mas deve ser vista com vergonha e horror fora desse espaço.
No mundo greco-romano a calamidade seguinte a emergir sobre a luxúria foi à emergência do estoicismo. O lema estóico, em geral, é “Não perturbe”: para viver bem devemos evitar sermos arrebatados para a vida da razão por meio de explosões obstinadas. As emoções que ameaçam o autocontrole, como o pânico, a raiva, a dor ou a luxúria, são os inimigos, mas o autodomínio estóico nos capacita a sobrepujá-las. Na imagem platônica, o cocheiro deixa ambos os cavalos morrerem de fome.
Sêneca, filósofo romano e estadista, cujo lema era “nada em benefício do prazer”, o triunfo sobre o prazer sexual era um passo crucial “se você considerar que o desejo sexual foi concedido ao homem não para a satisfação do prazer, mas para a continuação da raça humana, uma vez que você tiver escapado da violência dessa destruição secreta implantada em seus órgãos vitais, todos os outros desejos lhe passarão incólumes. A razão inferioriza e humilha os vícios, não um a um, mas todos juntos”.
É comum culpar Santo Agostinho pela real demonização da luxúria. Enquanto caminhava por um jardim em Milão, ele descobriu a Epístola de Paulo aos Romanos: “Procedamos honestamente, como em pleno dia: nada de glutonarias e bebedeiras, nada de orgias e imoralidades nem de contendas e rivalidades. Pelo contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não atendais aos desejos e paixões da vida carnal” (13:13-14). Conta a história que impressionada pela relevância desse texto, ele desenvolveu uma fobia de suas alcovas e libertinagens anteriores e, para justificá-las, inventou uma teologia monstruosa com base em um conceito de pecado original e sua transmissão por Adão à humanidade inteira, toda corrompida pela pecaminosidade da luxúria.
Outra grande influência sobre Agostinho foi o maniqueísmo, que diz que o mundo é um campo de batalha de duas forças implacavelmente opostas, a luz e a escuridão. A luz dominava a alma, e a escuridão, o corpo. A luxúria é o centro da nossa corporificação, o cativeiro da alma para as forças da escuridão. A vida religiosa consiste em tentar ajudar a libertar a alma, pela mistura de contemplação e ascetismo.
Além disso, o culto da virgindade, na época de Agostinho, estava em alta. São Paulo havia dito que era melhor casar do que arder de desejo, mas o casamento era claramente a segunda opção, o ideal era não casar, nem arder de desejo. Muitos defendiam que a correta e única vida católica era a reclusão monástica no deserto, interessante que quanto mais isolado no deserto, mais a luxúria se torna problemática.
Para os primeiros cristãos qualquer movimento de desejo luxurioso terá a tentação, a serpente do mal. E para eles, a castidade os protege de muitas coisas, principalmente da conspurcação.
Com toda uma cena que associava a luxúria com a sujeira, com os estratagemas do mal e da escuridão, com o animal e o corpo, e por fim, com a danação e o inferno. Santo Agostinho precisava apenas inspira-la a níveis cada vez mais elevados.
Agostinho percebe que a involuntária e rebelde natureza do desejo sexual, que precisa ser domado a qualquer custo, é um símbolo do estado de queda de toda a humanidade. O verdadeiro significado da rebelião do corpo contra a razão da alma é o símbolo da rebelião da humanidade contra Deus.
“Você não deseja filhos, por quem os casamentos são exclusivamente contratados. Por que então você não está entre os que proíbem o casamento, se procura destituir o casamento daquilo que o constitui? Porque se isso for tirado dessa relação, os maridos se tornarão amantes desprezíveis, as mulheres prostitutas, os casamentos, camas de bordéis, e os sogros, cafetões”.
Santo Agostinho
Assim podemos dizer que o ideal é a vida na virgindade, ou o casamento sem sexo. Na pior das hipóteses a melhor coisa é o matrimônio com atividade procriadora desprovida de prazer e luxúria. A atividade procriadora com prazer é lamentável. Mas o pior de tudo é a atividade sexual pelo simples prazer, porque transforma sua esposa em prostituta e sua casa num bordel.
Nas suas obras, São Tomás de Aquino caracteriza rotineiramente a relação sexual marital em termos que incluem a sujeira, a mancha, a loucura, a vileza, a desgraça, a corrupção. O casamento não é algo bom em si, é apenas um mal necessário que pode evitar males ainda piores, a fornicação, a masturbação e a bestialidade.
São Tomás de Aquino tenta criar uma ponte entre o pensamento aristotélico e o cristão, continua as observações de Aristóteles de que a fêmea é um macho ilegítimo. Só existiriam mulheres porque os ventos do sul produzem seres com elevado conteúdo aquoso, e as mulheres possuem uma incontinência sexual maior que os homens.
Aqui vale lembrar a observação de um francês, contemporâneo de São Tomás, Guillaume d’Auverne, que se a mulher é um homem imperfeito, pressupõe-se que o homem seja a mulher perfeita e, conseqüentemente, um alvo mais apropriado para a luxúria não só do macho, mas também da fêmea.
Mas, São Tomás, provoca uma confusão. A base da filosofia moral aristotélica é que devemos fazer o que é natural para o homem. A virtude consiste em agir de forma condizente com a natureza, e o vício, em agir em oposição à natureza.
Essa acepção parece justificar as relações sexuais. Mas, Santo Agostinho já havia respondido esse problema. A natureza não é o que encontramos a nossa volta, mas sim como era no Jardim do Éden antes da queda de Adão e Eva, lá que reside a verdadeira natureza.
Porém, natural, também é o que está de acordo com a razão. Por isso, São Tomás considera uma atitude razoavelmente benigna as atividades matrimoniais, desde que balanceadas pela razão. Assim, “a castidade toma seu nome do fato de que a razão ‘castiga’ a concupiscência que, como uma criança precisa de controle, como afirma o filósofo [Aristóteles]”.
Para termos uma boa noção se a copulação constituiu um pecado, São Tomás nos diz:
“Um pecado, nos atos humanos, é aquilo que vai contra a ordem da razão. E a ordem da razão consiste na sua ordenação de tudo para sua devida finalidade, de uma maneira apropriada. Portanto, não é pecado que alguém, pelos ditames da razão, utilize certas coisas de uma maneira e em uma ordem apropriadas à finalidade para a qual foram adaptadas, desde que essa finalidade seja algo verdadeiramente do bem. Ora, assim como a preservação da natureza corporal de um indivíduo é um verdadeiro bem, a preservação da natureza da espécie humana é, igualmente, um bem muito grande. E exatamente como o uso da comida é direcionado à preservação da vida no indivíduo, assim é a utilização de atos venéreos direcionados à preservação de toda a raça humana”.
São Tomás de Aquino, Summa Theologica II-ii.153.
Seguindo curso da história, esses pensamentos sobre luxúria, restrição, razão e o que é natural cria a mais rigorosa proibição de sexo recreativo de todos os tempos e se torna centro fundamental da doutrina cristã.
Agora devemos nos perguntar se, realmente, todo atividade ou desejo sexual que não tenha como fim a procriação deve ser considerada imoral.
Importante é considerarmos se a natureza, à parte da humanidade caída, respeita a opinião de que não se deve condescender no sexo exceto para fins de reprodução. Ora, a natureza está cheia de comportamentos sexuais estranhos:
· Travestimos, alguns machos aparecendo como fêmeas, a fim de evitar conflitos com outros e conseguir alguma fertilização;
· Masturbação, muitos animais, chimpanzés e orangotangos, iguanas marinhas, veados;
· Homossexualismo;
· Excesso sexual, observou-se um leão que fez sexo 157 vezes em 55 horas com duas fêmeas diferentes, ou uma fêmea de chimpanzé que teve relações com sete machos diferentes, chegando a um número de 84 vezes em oito dias.
Esses dados foram extraídos do livro da bióloga Olívia Judson, Consultório sexual da Dra. Tatiana para toda a criação, que demonstra que a natureza não segue um roteiro muito específico quando se trata de sexo.
Na ficção de Shakespeare o amor é mais associado com caducos irracionais, à loucura, a fraude, a cegueira e a ilusão. O amor erótico é uma espécie de verniz sobre a luxúria:
“os amantes e os loucos possuem cérebros tão fervilhantes,
Fantasias tão imaginativas, que apreendem
Mais do que a fria razão mais compreenderá.
O lunático, o amante e o poeta
São de imaginação inteiramente compacta”.
Shakespeare, Sonho de uma noite de verão, V, 1
“a poesia mais verdadeira é a mais dissimulada, e os amantes são dados à poesia; e o que eles juram na poesia, pode-se dizer, como amantes eles dissimulam.”
Shakespeare, Como gostais, III, 3
O amante shakespeariano vai além da mentira como uma estratégia amorosa, ele aposta na interpretação dos suspiros e das promessas. O amante shakespeariano vê o que ele imagina, o que deseja ver.
Por isso Cupido é sempre retratado como uma criança cega. A cegueira pois ele não vê o mundo real, apenas o imagina, e a criança representa a impetuosidade, a falta de autocontrole e consciência.
As ilusões provocadas pelo amor são frutos da nossa interpretação. Os amantes não são cegos. Eles enxergam a celulite, as verrugas, mas não se importam. David Hume resumiu o apetite sexual da seguinte maneira:
“O apetite da geração, quando confinado a certo grau, é evidentemente do tipo agradável e tem forte associação com as emoções agradáveis e prazerosas. A alegria, o júbilo, a vaidade e a bondade são todos incentivos a esse desejo, do mesmo modo que a música, a dança, o vinho e a alegria. Quem se inflama com a luxúria, sente pelo menos uma afabilidade momentâneo pelo objeto dessa lascívia e ao mesmo tempo o imagina mais bonito que o comum”.
Shakespeare contrastada Hume pois diz que não é só a visão do amante que é enevoada, a própria percepção do ser é afetada de modo dramático.
A interpretação pode trazer sua própria verdade, é uma fixação do ser e de uma decisão e a comunicação (através da poesia) é um pedido à outra pessoa para que tome uma decisão idêntica. Se tudo vai bem o poema torna-se verdadeiro.
A questão levantada aqui é se não deveríamos levar nossa luxúria de um modo simples, sem as fantasias do amor. A sabedoria convencional diz que não há nada de errado com a luxúria, desde que os parceiros se amem. Mas ao questionarmos se devemos preferir entre a luxúria acrescida de ilusões e fantasias a luxúria pura e simples, não fica claro porque preferimos a primeira.
Para muitos filósofos clássicos, admiravelmente racionais, a luxúria é o melhor remédio contra o amor. Epicuro e Lucrécio não preferiam o amor, o amor é uma loucura que toma conta da pessoa e domina sua alma racional. Para Lucrécio se você sentir o amor chegando deve afogá-lo num rio de luxúria desenfreada.
Shakespeare não é de jeito nenhum um crítico consistente da luxúria. Em especial nas comédias, o amor é uma coisa de classe, as mais altas se embelezam de amor e as mais baixas se tornam “copulativos rústicos” num atitude mais sólida. Rosalinda em Como gostais nos diz:
“... pois seu irmão e minha irmã nem bem se conheceram, se olharam; nem bem se olharam, se amaram; nem bem se amaram, suspiraram; nem bem suspiraram, perguntaram a razão, um ao outro; nem bem conheceram a razão, buscaram a solução; e nesses passos, eles fizeram um par de escadas para o casamento, que subirão incontinentes ou, de outro modo, serão incontinentes antes do casamento. Eles estão na própria cólera do amor e estarão juntos. Pauladas não podem separa-los”.
Aqui não existe falso sentimento que separa o amor da luxúria. Não podemos acreditar seriamente que os amantes viram um conjunto de virtudes e perfeições um no outro. Eles percebem algo agradável, que convencionamos chamar de “amor à primeira vista”. O resto eles projetam e imaginam. Eles têm necessidades que serão atendidas pelo que acontecer adiante e, sob pressão comum, fantasiam e sonham em tornar realidade o mito de Aristófanes do Banquete de Platão.
Dissemos que a luxurio era o desejo ativo e excitado pelos prazeres da atividade sexual, sem, no entanto, especificar de que prazeres se trata. A melhor pista vem de Thomas Hobbes, filosofo do século XVIII, que escreve:
“O apetite a que os homens chamam Luxúria... é um prazer sensual, mas não é apenas isso; existe nele também um prazer da mente, uma vez que consiste em dois apetites juntos, o de agradar e o de ser agradado. E o deleite que os homens têm em deleitar não é sensual, mas um prazer ou alegria da mente que consiste em imaginar o poder que têm de agradar.”
A luxúria é como fazer música juntos, uma sinfonia comum de prazer e resposta. Existe uma pura reciprocidade, uma mutualidade, uma interdependência pura ou o que chamamos de uma unidade hobbesiana.
Nessa unidade os prazeres deixam de ser apenas corpóreos e se tornam “prazeres da mente”, deleites por fazer algo. O sujeito não se deleita fundamentalmente em si mesmo, mas com a excitação do outro. A percepção mútua aumenta quando o corpo assume a direção, quando é inundado de desejo. Aqui a natureza involuntária da excitação sexual faz parte do prazer, o sinal de que o outro está começando o processo de rendição involuntária ao desejo. Thomas Nagel define:
“Essas reações são percebidas, e a percepção delas é percebida, e aquela percepção é, por sua vez, percebida; a cada passo, o domínio da pessoa pelo seu corpo é reforçado e o parceiro sexual torna-se mais passível de ser possuído pelo contato físico, pela penetração e pelo envolvimento.”
Hobbes ajuda a responder à questão que colocamos anteriormente, ou seja, a razão pela qual o final extático pode ser uma experiência de comunhão ou de se sentir uma única pessoa com o outro.
Um ponto de grande importância sobre a unidade hobbesiana é que ela pode ser o que os filósofos chamam de ‘realizado variavelmente’, ou seja, não existe uma única maneira de fazê-lo. E ainda assim, não são os movimentos, mas os pensamentos por trás deles que interessam à luxúria.
A unidade hobbesiana não é intrinsicamente impossível, não mais do que é a comunicação. Assim como na conversa ou na música, não é somente eu faço algo e você faz algo que convenientemente se encaixa ao meu algo. Nós fazemos algo juntos, mostrado por nossa atenção ao outro e pelos ajustes que fazemos à luz do outro.
O contato corporal pode nem mesmo ser necessário, como James Joyce nos demonstra no episódio “Nausicaa” de Ulisses, em que Leopold Bloom e Gertie McDowell olham um no outro na praia, usando a excitação percebida no outro para provocar o próprio clímax.
Claro, existe muita coisa que pode dar errado, e muitas vezes dão. Assim como na música e na conversa, no sexo, também existe o rústico e chato ou o egocêntrico que escuta apenas a própria voz, e a unidade também pode ser atingida somente porque um parceiro foi moldado pelo outro, agradando-se obedientemente no que o outro faz, independente de seus próprios desejos.
Podemos imaginar que partilhamos uma unidade hobbesiana quando realmente não partilhamos. Você pode pensar que provocou deleite recíproco quando não o fez.
Mas, então, todos sabemos que a luxúria pode dar errado, e que suas provações e esforços são o cerne do humor e também da tragédia humana.
Para estabelecermos um contraste com a imagem da unidade hobbesiana vamos nos utilizar da descrição de Immanuel Kant:
“O amor, como afeição humana, é o amor que quer bem, é amigavelmente disposto, promove a felicidade dos outros e se alegra com isso. Mas agora fica claro que aqueles que meramente têm inclinação sexual amam a pessoa por nenhum dos motivos precedentes da verdadeira afeição humana e estão bastante despreocupados com sua felicidade e, até mesmo, os arrastarão para um grande infelicidade, simplesmente para satisfazer sua própria inclinação e apetite. O amor sexual faz da pessoa um objeto de apetite; e assim que a outra pessoa é possuída e o apetite, saciado, elas são jogadas fora, ‘como se joga fora um limão que foi espremido até ficar seco’”.
Para Kant a luxúria objetifica a outra pessoa usando-a meramente como um meio, uma ferramenta para seus próprios propósitos. Além de desumano e degradante é moralmente proibido, já que, para Kant, não podemos nos utilizar de outra pessoa como um simples meio para satisfazer suas próprias finalidades.
Na visão de Kant, o casamento não passa de um mero contrato para que cada um dos parceiros utilize os genitais do outro. O que nos faz pensar que foi bom que ele jamais tenha se casado.
Essa descrição obscena pintada por Kant da luxúria é considerada inevitável por muitos, especialmente, sob condições sociais e políticas nas quais um parceiro, em geral o homem, tem mais poder que o outro, provocando um inevitável apagamento da personalidade do parceiro mais fraco, que se torna um servo sexual, disponibilizando seus genitais a serviço do outro.
Numa rápida análise do pensamento freudiano, o sexo ou é nojento demais para ser praticado ou, quando praticado, não é nojento o bastante para ser gratificante, a menos que a pessoa faça uso de suas servas e criadas. Existe também o problema paralelo para as mulheres, menos enfatizado pro Freud, que resulta em um gosto por homens fortes e musculosos.
Básico para entendermos o quadro pintado por Freud é necessário que a sexualidade seja algo intrinsicamente degradante, para si mesmo ou para qualquer pessoa com quem se possa estar relacionado.
Nesse aspecto Freud é melhor que Kant, enxergando a degradação prazerosa como uma espécie de relacionamento humano, embora seja um relacionamento que se consegue tenuamente pela barreira de classe quase impenetrável.
Martha Nussbaum, num ensaio clássico , relaciona sete características da objetificação de um dos parceiros:
1. Instrumentalidade, usar o outro como mero instrumento dos próprios propósitos;
2. Negação da Autonomia, tratar o outro como se ele não tivesse autodeterminação;
3. Inércia, tratar o outro como passivo e sem função;
4. Fungibilidade, tratar o outro como se fosse substituível por objetos do mesmo tipo ou, ainda, de outros tipos.
5. Violabilidade, tratar o outro como se não tivesse um limite de integridade, ou como se fosse passível de violação,
6. Posse, tratar o outro como algo que pode ser utilizado, comprado, dispensado ou vendido.
7. Negação da Subjetividade, tratar o outro como algo cujas experiências e sentimentos não precisam, talvez nem devam, ser considerados.
Mesmo sem cavar nas regiões mais sombrias do desejo, podemos afirmar sem sombra de dúvida que elas estruturam grande parte da experiência sexual das pessoas.
Os itens relacionados nessa lista, com certeza são ruins, mas alguns deles são vizinhos próximos de coisas bastante boas.
A cristalização e a criação de ilusões sobre o eu e o outro se aproxima da objetificação, mas, como já discutimos, a imaginação pode ser parte integrante do amor. Outros não podem descobrir o que vemos nela, porque eles compartilham essa cristalização.
Suposições e fantasias também podem levar as pessoas a um tipo de atuação na qual os amantes infantilizam um ao outro, algo que nos parece mais comum do que a degradação universal apregoada por Kant e Freud. O comportamento íntimo é, geralmente, infantil.
O desejo de privacidade sexual é, na maioria das vezes, mal interpretado como vergonha de fazer algo que, logo, deve ser vergonhoso. Mas o desejo de privacidade não deve ser moralizado dessa maneira. Pois quando observados, o observador não possui os significados, a visão, que os participantes possuem e impregnam toda situação. Então um mero olhar pode se tornar um comportamento obsceno e animal.
O quarto modo de objetificação, a fungibilidade, é o item mais difícil da lista de Nussbaum.
Todos gostamos de acreditar no mito de Aristófanes que estabelece para cada um de nós um única alma gêmea existente. Não queremos pensar que se o outro nos ama, seja pela nossa conta bancária ou pelo nossos olhos azuis, então qualquer outra pessoa com essas características servirá. Não devemos nos alongar em questões do tipo: “você me ama pelo que eu sou ou pela minha... ?”. Nós somos a soma das nossas qualidades sejam mentais ou físicas. Mas, a medidas que um relacionamento cresce, as pessoas vão adquirindo qualidades únicas e excepcionais, que ninguém tem, nem poderia ter.
Ainda assim, é necessário confessarmos que a luxúria é bem amiga da ‘substitutabilidade’. Porém essa substituição nem sempre é livre, inclusive o filosofo Roger Scruton chega a dizer que o desejo sexual só existe após concentrar seu foco em uma pessoa especifica, assim não existiria um desejo sexual genérico.
Não concordamos exatamente com Scruton, afinal nos parece plenamente possível a excitação sexual com a antecipação e a procura de uma conquista.
Ainda no campo da substituição podemos falar sobre duas áreas muito carregadas: a prostituição e a pornografia. Ninguém realmente vai dizer ambas representam o melhor da luxúria, afinal, em nenhuma delas existe a menor possibilidade de atingirmos algo sequer semelhante a unidade hobbesiana. Na diversão pornográfica não existe um parceiro real e na prostituição não existe um parceiro que desejo seu desejo, apenas um que deseja seu dinheiro.
A psicologia evolucionista é algo relativamente novo na literatura sobre a luxúria. O objetivo do psicólogo evolucionista é identificar as constantes universais da psicologia humana e em seguido propor e testar a teoria que defende que elas são adaptações evolucionistas.
Como o acasalamento e a reprodução são temas de grande importância para a espécie humana, é lógico que sejam temas de estudo para psicologia evolucionista.
A grande diferença na seleção sexual feita por homens e mulheres se dá devido à contribuição de cada um na reprodução. Como o investimento (sim, essa parece ser a palavra mais exata) feito pelas mulheres é maior que o dos homens, elas se tornam mais seletivas, geralmente procurando homens que possam lhe dar mais segurança para a criação do filho. Já os homens por terem uma contribuição bem menor, podem, literalmente fecundar quem passar perto.
Esse é um ‘cálculo genético inconsciente’ que dita as regras e governa nossos gostos e propensões.
O problema é que é muito difícil estabelecer um padrão nesse cálculo, afinal não temos um pensamento empírico que aproxime as condições sociais de uma savana ou de uma era mais distante como o Pleistoceno, por exemplo.
David Hume, no seu Tratado da natureza humana, escreve, buscando, muito antes do psicólogos evolucionistas, explicar alguns traços humanos:
“Quem quer que considere a extensão e a fragilidade da infância humana, com a preocupação que ambos os sexos têm naturalmente por seus rebentos, perceberá facilmente que deve existir uma união do macho e da fêmea para a educação do jovem e que essa união deve ser de duração considerável. Mas, para induzir os homens a impor a si mesmos essa restrição e passar alegremente por todas as fadigas e os custos aos quais ela os sujeita, devem acreditar que os filhos são verdadeiramente seus... já que na copulação dos sexos o princípio da geração vai do homem para a mulher, um erro pode facilmente ocorrei no lado do primeiro, embora seja completamente impossível do lado da segunda. Dessa observação trivial e anatômica deriva a vasta diferença entre a educação e os deveres dos dois sexos”.
Essa observação trivial se resume ao fato de que as mulheres sempre sabem quais são seus próprios filhos, mas os homens nunca estão seguros disso.
“Todas as criaturas humanas, especialmente as do sexo feminino, sçao aptas a desconsiderar e esquecer motivos remotos em favor de qualquer tentação presente: A tentação aqui é a mais forte possível e imanginável: Suas abordagens são insensíveis e sedutoras: E uma mulher encontra facilmente, ou se ilude de que encontrará, certos meios para preservar sua reputação e prevenir todas as conseqüências perniciosas dos seus prazeres.”
Hume dá como certo que as mulheres são tão ou mais sujeitas a tentação como os homens, e a punição em forma de dano à reputação é apenas uma solução grosseira. Será então que as mulheres devem construir um hábito de recatada relutância em permitir os avanços masculinos (interessante notar que Hume não supõe que a construção de uma recatada relutância masculina seja possível)?
“Como dificuldades, que aprecem intransponíveis na teoria, são facilmente resolvidas na prática. Aqueles que têm um interesse na fidelidade das mulheres naturalmente desaprovam sua infidelidade e todas as abordagens que lhes são feitas. Os que não têm interesse são carregados pela corrente. A educação se apossa das mentes maleáveis do sexo belo e frágil desde a sua infância”.
Acreditamos que Hume conseguiu descrever pelo menos uma parte do quadro. De muitas e variadas maneiras, as meninas são educadas de forma mais reservadas quanto ao sexo. A educação e a cultura é o único meio de impor, tanto para machos como para fêmeas, alguma idéia de castidade.
Porém, o fundamento lógico evolucionário é a reprodução. Mas não é a isso que visa a luxúria, a luxúria procura uma boa e satisfatória relação sexual. O saciamento do desejo sexual.
Com certeza a maior parte do sexo praticado no mundo não visa a reprodução. As pessoas partem com gosto para outras práticas sexuais que nada tem a ver com a reprodução, masturbação e sexo oral, apenas para iniciar uma lista gigantesca.
A psicologia evolucionista ainda não conseguiu explicar o porque que, segundo Santo Agostinho, somos governados pelos desejos, e ainda por cima, desejos instáveis.
A natureza nos faz de bobos. Nossos hormônios e programas genéticos podem nos escravizar. Mas, a natureza nos dá em troca o prazer. Acredito que o equilibro seja bom o suficiente, afinal, no final das contas derivamos algum prazer de nossa existência.
A natureza fez o seu melhor, criou a luxúria como um mecanismo e a maneira como o utilizamos – como o relacionamos com o mundo – fica por nossa conta.
Mas ainda resta esperança afinal, a unidade hobbesiana pode ser alcançada; se não pode, pode ser ambicionada ou no mínimo, imaginada e sonhada. Quando compreendemos a unidade hobbesiana pelo que ela é – a comunhão final entre dos seres – podemos recuperar a luxúria para a humanidade e aprender que seu bom florescimento só ocorre quando não desvirtuamos, seja por uma filosofia ruim ou uma ideologia maléfica corrompida por falsidades, distorções e corrupções.